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Violência

Sei que o tema da violência no futebol é chato e complexo. Mas vou tentar tratar dele sempre que for possível, já que não podemos fingir que não existe.

Do desabafo sobre a violência no futebol e a “criminalização” de torcedores da paz que o Rafael Botelho fez em seu blogue TV Blogueiro, e que foi reproduzido em outros blogues, a parte que mais me chamou a atenção foi essa:

– No intervalo [de Juventus 2×3 Avaí, em Jaraguá do Sul], meu filho pergunta: “Pai, por que aquele policial está com uma escopeta na mão e olhando pra gente?”

Aparato policial para um jogo do Campeonato Sergipano. Precisaria isso tudo pra um simples jogo de futebol? (Foto: Batalhão de Choque PMSE)

É difícil mesmo de explicar ao filho de 9 anos do Rafael o porquê de termos policiais armados até os dentes para fazer a segurança de um simples jogo de futebol. Mas, vejam, é algo que “evoluiu” com o tempo. Os mais antigos lembram que as torcidas de Avaí e Figueirense iam juntas aos clássicos e nem existia divisão entre elas nas arquibancadas. A minha geração não pegou essa época e tem dificuldade em aceitar a possibilidade de haver, por exemplo, um setor misto em clássicos, algo que seria normal algumas décadas atrás. 

A minha geração também acostumou-se com a ideia de que um alvinegro não pode ficar na Toca do Leão até minutos antes de um clássico na Ressacada e, daqui a pouco, não conceberemos mais a ideia de que uma torcida organizada pode ir ao clássico sem que seja escoltada pela PM. Se nada for feito, a geração do filho do Rafael pode crescer com a ideia de que cavalaria, spray de pimenta, bala de borracha e helicóptero são tão inerentes a uma partida de futebol quanto a bola, o árbitro e os jogadores.

Quando falo em algo a ser feito, não sei dizer exatamente o quê. Na verdade, creio que sejam “o quês”, um conjunto de ações, que envolvam governo, Justiça, segurança pública, federações, clubes e mesmo nós, torcedores. Por isso, vejo como positivas punições como a que o Figueirense recebeu pela baderna provocada pela Gaviões Alvinegros após o último clássico. Sei que muita gente vai defender que “o clube não é responsável pelos atos de seus torcedores”, mas considero que essa é uma das ações que podem ajudar no combate à violência no futebol. O Figueirense foi prejudicado e a sua torcida também, pelo ato dos “organizados”. É uma ótima oportunidade para que clube e demais torcedores repensem sua relação com esses caras.

Briga entre torcedores da Roma (Itália) e do Manchester Untied (Inglaterra) em 2007. Era apenas um jogo de futebol… (Foto: Daily Mail)

Gostem ou não, na maioria dos casos, a violência ligada ao futebol tem origem nas torcidas organizadas, e isso não é só no Brasil – o mesmo acontece com as barras bravas nos nossos vizinhos sul-americanos ou com os ultras na Europa. Se os casos de violência têm origem não na totalidade de uma torcida, mas por uma pequena parte dela, não fica mais fácil combatê-los? Em teoria, deveria ser, mas as organizadas têm, muitas vezes, apoio dos clubes para viagens e compra de ingressos, recebem um espaço no estádio só para elas e são idolatradas por muitos torcedores – inclusive pelos atos de violência que cometem.


Em ambos os casos, é o o que se pode chamar de “ode à violência”

É verdade que quase sempre são elas que fazem a festa, puxam os cantos, são o “pulmão” do estádio e, eu também acredito nisso, a maioria de seus componentes não se envolvem em brigas.  Mas se o objetivo delas é só o de apoiar o clube, e se elas são “organizadas”, não conseguem identificar e retirar esses maus elementos dos seus quadros? Esses caras que aprontaram no clássico serão expulsos da Gaviões? Ou vão, ao contrário, ser vistos como “referência” na torcida? A Mancha Azul, a União Tricolor, a Fúria Marcilista etc., aceitam como seus componentes torcedores com histórico de participar de atos de violência? Por que os bons não conseguem afastar os maus?

Imagem pesada, né? É para nós não esquecermos. Ah, e era apenas um jogo de futebol… (Foto: Diário Catarinense)

Não quero criar alarmismo, mas em Santa Catarina a violência no futebol é latente. Às vezes, parece que está tudo calmo, mas sempre acontece um apedrejamento de ônibus aqui, uma tocaia ali, nada que ganhe muito espaço no noticiário, até que, um belo dia, alguém é baleado dentro do estádio, ou morre por causa uma pedrada na cabeça, ou tem a mão decepada por uma bomba caseira – e, pra mim, a discussão sobre quem atirou a primeira pedra é clubista e irrelevante.

Aí, a imprensa e a sociedade convocam discussões sobre a violência no futebol, que em pouco tempo serão esquecidas, até o próximo caso “grave”. Quem vai a estádio, ou viaja para ver seu time, com o Rafael Botelho, sabe que o clima de tensão é constante. Algo que o filho dele, de 9 anos, talvez ainda não entenda completamente, mas parece já ter notado que existe.

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