Arquivo de outubro \03\UTC 2012

Lembrei-me de Cecílio

Depois das duas vitórias de Argel, lembrei-me de… Toninho Cecílio. Ex-jogador, ex-zagueiro, treinador, digamos, “participativo”, Cecílio chegou num Avaí completamente arrasado, na última rodada do turno da Série A do ano passado. A estreia não poderia ser mais cascuda: um clássico, fora de casa, contra um Figueirense que havia somado 28 pontos contra 14 do Leão. Fazendo um cálculo rápido, constatamos que o lado alvinegro da Força tinha o dobro dos pontos que nós tínhamos.

O Avaí vinha de três derrotas (1×2 pro São Paulo, 0x5 pro Cruzeiro e 0x2 pro Vasco) e um empate (0x0 com o Coritiba), sendo que três desses jogos foram em casa. Cenário desanimador, mas decidi ir ao clássico lá no Scarpelli, como sempre faço. Era um domingo à noite, com transmissão da partida ao vivo para todo o Brasil pelo Sportv. Não muitos avaianos, verdadeiros ou não, tiveram os mesmos huevos, como dizem lá na terra do Riquelme e de seu empresário, já que não lotamos a nossa parte do estádio.

Realmente o cagaço era grande, mas, vou confessar, é esse tipo de jogo que gosto. Respeito um sambinha, curto um reggae, mas gosto mesmo é de rock’n roll. E ganhamos. Um jogo em que eles tiveram 30 finalizações contra 12 nossas. Com eles perdendo pênalti quando venciam por 1×0. Com William inspirado, com Lincoln estreando, com Dirceu e Gustavo Bastos na zaga, ganhamos por 3×2 de virada, os dois últimos gols na trave perto da torcida visitante, vimos de perto, uma loucura. Comemoramos como se fosse título uma vitória que ainda nos deixava, como ficamos o campeonato todo, na zona de rebaixamento.

No segundo jogo com Cecílio no comando – na verdade, com Betinho na casamata, já que o treinador estava suspenso – metemos 3×2, agora no Flamengo, que brigava pela liderança do campeonato. Foi a única noite em que dormimos fora do Z4. A esperança de dias melhores abundava. O ex-zagueiro do Palmeiras ganhava aura de heroi. Em dois jogos.

Mas Cecílio não fez milagres. Engatou uma sequência de derrotas e acabou com uma campanha de apenas um terço de aproveitamento de pontos. Não poderia ser diferente. O elenco do Avaí era pavoroso e desequilibrado, com um bom ataque e uma defesa ridícula de ruim. A lua-de-mel entre avaianos e Cecílio durou dois jogos.

Um ano depois, Argel foi bem em seus primeiros dois jogos que, convenhamos, foram mais fáceis que os de Cecílio. Os dois em casa (ok, o Scarpelli virou a Ressacada, mas é deles, não nosso), um contra time da zona do rebaixamento e a diferença técnica entre Avaí e Vitória é menor que a de Avaí e Flamengo ano passado. Mas ganhou, ok, e já surgiram os comentários de que ele é o cara, que participa mais do jogo que o Maria, que conversa e berra com os jogadores enquanto o Maria ficava com a mão no queixo, que quem lamentava era viúva do Cléber e do Maria etc. etc. etc. Prefiro ir devagar e sempre.

Sou novinho ainda, 28 anos, mas estou perto de completar 300 jogos do Avaí assistidos em 14 estádios do Sul do Brasil, sempre pagando tudo do meu não muito fundo bolso. Com certeza tem gente da minha idade que já viu muito mais, mas não são números desprezíveis. Desde gurizinho, sempre acompanhei futebol do mundo todo, por isso simpatizo com tantos clubes mundo afora, e tenho, digamos, uma memória de elefante para assuntos irrelevantes como futebol (quase tão boa quanto a do Felipe Borges, que lembra até quem fez cruzamento pra gol na segundona de 1994). Já vi acontecer tanta coisa, mas tanta coisa em futebol que prefiro sempre esperar antes de dizer isso ou aquilo sobre jogador ou treinador. Tá aí o Leo Cego, né Miguel?

A derrota para o ASA pode ser apenas um percalço, um acidente, ou nos mostrar que realmente não adianta trocar de treinador a cada quatro meses, como é praxe no Avaí (beijo, Alice), se o time não ajuda. Em 28 rodadas da Série B, o que vimos até agora foi um elenco fraco, que ficou ainda pior tecnicamente com as saídas de Renato Santos e, principalmente, Cléber Santana. Vimos também que é um time, embora limitado, esforçado e que se dedica mesmo com atraso de salários. Num bom dia, pode até vencer com autoridade o líder Vitória. Porém, ainda não mostrou que tem condições de jogar em alto nível por uma sequência maior de jogos e subir à Série A.

Pode ser que Argel faça o tal “choque tático” para o qual foi contratado – isso, claro, se Eric Flores e Thiago Medeiros finalmente estrearem – e consiga uma sequência de vitória à Hemerson Maria. Vai ter que se esforçar, pois o limite do nosso elenco já é sabido. Se der certo e o milagre da multiplicação dos pontos acontecer, talvez ele permaneça no Avaí mais do que costuma ficar em um clube: foram 13 trocas de emprego em quatro anos de carreira. Se não der, provavelmente não chega a 2013, o que não seria nenhuma novidade no reino da Ressacada.

Vou continuar torcendo e apoiando na Ressacada e aonde mais puder ir – pô, CBF, marcar jogo em Curitiba pra uma terça à tarde… -, mas sem me precipitar nem criar ídolos de ocasião. Prefiro esperar sempre. Prefiro o longo prazo, coisa que, no Avaí, praticamente inexiste.