Vale quanto pesa

Enquanto aguardo a tabela “desmembrada” do estadual 2013 – com a definição de quais jogos vão ser no sábado, quais no domingo, quarta ou quinta – pra saber em quais estádios de Santa Catarina vou assistir o Avaí atuar no próximo ano, fico sabendo que Associação de Clubes e RBS fecharam em R$ 4 milhões o total pago pela emissora gaúcha para transmissão do Campeonato Catarinense. É quase o dobro do que a maior empresa de comunicação do Sul do Brasil pagou pelo torneio do ano passado, informa o Rodrigo Santos.

Não sei dizer se é muito ou pouco, pois não sei quanto a RBS gastará e lucrará com o estadual. Os clubes queriam R$ 6 milhões, a RBS dizia que não passaria de R$ 3,2 milhões e, no fim, fecharam por R$ 4 milhões. É bem possível que ainda houvesse mais pra tirar, como em qualquer negociação feita entre duas partes, mas, ficou assim.

Ainda segundo o Rodrigo Santos, ano passado a RBS pagou R$ 11,7 milhões pelo Campeonato Gaúcho. Isso fez com que clubes como o Avenida de Santa Cruz do Sul recebessem mais grana que Avaí ou Figueirense pelo seu estadual. É uma comparação interessante, mas, se a gente analisa melhor, vê que não dá para fazê-la (e eu mesmo já a devo ter feito). Isso porque a grana que a RBS paga é pelo campeonato, não para cada clube. A divisão, aí sim, é feita pelos clubes por sua associação ou federação (não sei exatamente como funciona no estado vizinho).

O Avenida recebe(ia?) mais dinheiro que Avaí e Figueirense pelo mesmo motivo que o Middlesbrough, pequeno clube inglês, recebia na temporada 2010-2011 praticamente a mesma grana da TV que Valência ou Atlético de Madri, importantes clubes espanhóis, cada um por seu campeonato. Os campeonatos são diferentes, de países diferentes, de economias diferentes, têm públicos diferentes (o Inglês tem uma grande penetração – ui! – em países asiáticos, por exemplo) e recebem valores diferentes da TV. O Gérson dos Santos abordou mais ou menos isso.

Enquanto no Rio Grande do Sul, estado com 10,5 milhões de habitantes, mais de 80% das pessoas afirmam torcer pra Grêmio ou Inter, em Santa Catarina, com seus 6 milhões de habitantes, as torcidas de Avaí, Joinville, Criciúma, Figueirense e Chapecoense somadas mal chegam a 30% do total. É o que dizem as pesquisas que nos colocam, com muito orgulho, como time catarinense com mais torcida. A realidade, no entanto, mostra que há mais catarinenses flamenguistas e até gremistas e colorados que torcedores de qualquer clube barriga-verde.

A diferença de “mercados” é muito grande e um argumento a favor da RBS para justificar a disparidade dos valores que paga pelos dois estaduais que transmite. A presença de Grêmio e Inter, que abocanham a maior parte da grana do Gauchão, beneficia os Avenidas da vida – algo que, espera-se, ocorra conosco com a volta do Palmeiras à Série B. Em Santa Catarina, não temos uma dupla Grenal (apesar de as grades de transmissão da RBS terem sempre quase 80% dos jogos transmitidos de Avaí ou Figueirense, para desespero dos interioranos) que atraia tanto público e gere, portanto, tanta audiência.

E poderia ser diferente? Sim. Se houvesse mais avaianos em Caçador, alvinegros em Canoinhas, jequeanos em São Joaquim, poderia ser diferente. E por que não há? Aí, vamos discutir o ovo ou a galinha – as pessoas não se interessam pelos clubes locais porque a TV transmite jogos de fora ou a TV transmite jogos de fora porque as pessoas não se interessam pelos clubes locais? Não sei dizer o que veio primeiro. Mas poderia a RBS, líder de audiência em Santa Catarina, promover, por exemplo, campanhas para valorizar os times locais? Sim. Deveria? Talvez sim, ainda mais porque suas emissoras de rádio e TV são concessões públicas e há (há?) interesse dos catarinenses em ver seus times de futebol mais fortes. É uma boa discussão e, se é o que queremos, cabe a nós, torcedores, pressioná-la para que isso ocorra.

Mas enquanto a mui parceira RBS não faz isso, cabe aos nossos clubes virarem-se como podem para conquistar corações e, com isso, garantir mais audiência ao estadual e, consequentemente, mais poder para barganhar recursos. Não sou o maior entendedor de comunicação organizacional do mundo, mas como trabalho com isso todos os dias há cinco anos e tenho formação (graduação e pós) na área, alguma coisinha eu entendo. E uma das coisas que aprendi foi que, embora os veículos de comunicação de massa sejam importantíssimos, as organizações têm que criar e fortalecer seus próprios canais de contato com os públicos prioritários. Não se pode ficar refém da mídia, que é um agente externo e passa a mensagem que quer, não a que nós (=organização) queremos.

Programas de “cônsules”, camisas em homenagem a cidades, entrar em campo com bandeira de Santa Catarina, escolinhas, maior contato com imprensa do interior, acho tudo válido e importante para os clubes tentarem ganhar mais torcedores fora de sua região de origem – desde que essas ações sejam integradas e bem-feitas, claro. Já observamos, nos anos mais recentes, um movimento de valorização dos clubes locais – torcia-se “ainda mais” pra times cariocas aqui ou gaúchos no Oeste há duas ou três décadas – e espero que ele continue a ocorrer.

Pra finalizar, lembro que os clubes quiseram a RBS. Houve briga judicial em 2009 pra tirar o campeonato da Record. Alegaram baixa qualidade técnica e que o campeonato na emissora gaúcha traria mais exposição aos clubes, mesmo eles recebendo menos pelos direitos de transmissão. Recordo até hoje da sorridente Suyane Quevedo anunciando no Globo Esporte de sexta a transmissão de “Avaí x Brusque, ao vivo” no sábado. Aí, veio a Dona Justa e, créu, disse que o Catarinense era da Record e não teve transmissão nenhuma da RBS. Foi pela “emissora do bispo” que o estado viu  o Leão acabar com o jejum de quase 11 anos sem título.

Sem a Record, sobra quem? RBS. E quando há apenas uma opção pra negociar, não dá pra tirar muita coisa mesmo.

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3 Responses to “Vale quanto pesa”


  1. 1 Felipe M. 29 de dezembro de 2012 às 11:13

    Escrevi sobre isso em 2010 no blog, quando o Avaí recebia menos da metade do que receberá em 2013. Naquela ocasião, os maiores times catarinenses recebiam tres vezes menos que o Avenida, o que eu considerava (e ainda considero, pensando em 2010) um absurdo. Acho que a questão nunca foi a busca pela equiparidade com o RS, pelos motivos óbvios, mas uma valorização natural de um campeonato cujos times começavam a despontar no cenário nacional e o consumo estadual do futebol estava em alta. Segundo a Pluriconsultoria, o mercado catarinense é o que mais consome futebol, empatado em segundo lugar com o RJ (só perde para o RS). O problema é que no cenário interno, os times catarinenses ainda não dominam, como no RS, no RJ e outros estados. Mas, para acompanhar a ascensão, tornava-se necessária uma valorização, que não acontecia por incompetência dos clubes, que se vendiam a preço de banana, da associação de clubes, incapaz de assinar um contrato sem perder 10% do valor com um intermediário (agência de propaganda), da FCF, com delfim declarando nos microfones que não negociaria com ninguém mais se não a RBS e da empresa que pagava a conta, que não tinha interesse em valorizar o produto, afinal, não tinha concorrência e quanto menos pagasse, melhor.

    Acho que de 2010 para cá houve uma ótima valorização, mas não sei se é o suficiente, como voce mesmo falou. Avançamos 50% com relação a 2010, mas transmitindo 2 jogos, com 5 minutos de intervalo em cada partida a RBS recupera toda a cota paga ao Avaí, por exemplo, por todo o campeonato catarinense. Fora todos os outros veículos da rede que se abastecem diariamente (e com informações privilegiadas) da competição e que faturam naturalmente com esse conteúdo.

    Ou seja, óbvio que não valemos o que vale Grêmio e Inter e nem essa era a reclamação, mas o lucro que geramos não justificava sermos três vezes menores que o Avenida (metaforicamente heheh).

    abs!

  2. 2 felipefbs 29 de dezembro de 2012 às 15:12

    Xará, acho que a questão é que a RBS não paga para o Avenida, mas pelo Gauchão. Leia-se, por Grêmio e Inter. Os outro vêm a reboque da dupla de Porto Alegre e se beneficiam pela presença deles. Do mesmo modo, times pequenos do interior de SP recebem mais do que os grande daqui pelo Campeonato Paulista.

    Essa parte de teu comentário acho que resume grande parte do problema: “Segundo a Pluriconsultoria, o mercado catarinense é o que mais consome futebol, empatado em segundo lugar com o RJ (só perde para o RS). O problema é que no cenário interno, os times catarinenses ainda não dominam, como no RS, no RJ e outros estados.” Sim, a gente consome futebol, mas o futebol dos outros. Tem como gerar demanda pelo futebol daqui? Tem. Mas não acho que ficar esperando que a RBS tome a iniciativa de fazer isso seja a melhor alternativa. Os clubes e federação é que têm que se mexer.

    Como coloquei no texto, não sei dizer se R$ 4 milhões é muito ou pouco. Mas, como comentaste, de que maneira os clubes vão argumentar com a RBS que querem mais se eles não têm nem outra opção pra negociar? Fica difícil. Só sobra o mimimi mesmo.

    Abraço!


  1. 1 Mais informações sobre a grana da TV « Solta o Leão! Trackback em 29 de dezembro de 2012 às 15:11

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