Campeonato dos Sonhos, a final

Nunca antes na história dessa Ilha viu-se uma final como esta do Campeonato dos Sonhos. O Avaí de 1945 e o Avaí de 2009 decidiram, em 90 minutos, qual foi o melhor time avaiano campeão estadual. Quatorze grandes equipes caíram nas fases anteriores. Sobraram só essas duas, separadas por seis décadas de história.

O jogo começou às 16h, mas desde as 9h da manhã milhares de avaianos concentraram-se nos arredores da Ressacada. Beberam, conversaram, riram, jogaram dominó e fizeram churrasco no latão debaixo da arquibancada. Nas apostas, quase meio a meio. Enquanto a gurizada achava que a equipe de 2009 venceria com pé nas costas, os mais antigos, principalmente seus avós, alertavam para as armas que o time de 1945 tinha.

Faltando meia hora para o início da partida, as arquibancadas já estavam lotadas e lindas e enormes bandeiras pintadas de azul e branco tremulavam ao vento. No Campeonato dos Sonhos, bandeiras são permitidas, assim como as gerais, e a Costeirinha também ficou completamente lotada. Com ingressos baratos, a Barra da Lagoa desceu em peso para a Ressacada. Veio muita gente também da Armação do Pântano do Sul, da Lagoinha do Norte, de Potecas, de Três Riachos, da Guarda do Cubatão, de Ganchos, do Siriú… enfim, avaianos de todos os cantos, alguns que há muito tempo não entravam no nosso estádio.

Os times entraram em campo faltando cerca de 10 minutos para as 16h. O time de 2009 subiu primeiro, vestindo camisa azul, calção e meias brancos. A equipe de 1945 veio logo depois, com camisa listrada, calções e meias azuis. Os dois esquadrões perfilaram defronte ao setor A para ou vir o hino. Todos com a mão no peito, cabeça erguida e cantando: “Na ilha formosa / Cheia de graça / É o time da raça…”. No Campeonato dos Sonhos, só teve hino na final. E hino do Avaí, é claro. Que outro seria?

Ainda antes do pontapé inicial, um desfile engraçado: belas moças carregando caixões com cores e escudos dos times que foram vice-campeões do Avaí no estadual: pela ordem, Trabalhista, Figueirense, Brasil de Blumenau, de novo Brasil de Blumenau, Marcílio Dias, América de Joinville, de novo América de Joinville, outra vez Marcílio Dias, Caxias, Juventus de Rio do Sul, de novo Figueirense, Blumenau, Tubarão, Chapecoense, Joinville e, opa, mais uma vez Figueirense! Logo depois veio mais uma moça, carregando um caixão amarelo que continha a frase “Criciúma, pode esperar…”.

Saul e Marquinhos, os capitães, foram para o sorteio. O Galego ganhou o cara ou coroa e escolheu atacar para o gol do CFA, aproveitando o vento sul. Pontualmente às 16h, com transmissão ao vivo para 208 países, começou a decisão. Os treinadores Silas e Adolfo Boos estavam mais agitados na casamata que os times dentro de campo. A partida começou devagar, com um belo toque de bola. Haja craque em campo!

Contando com o apoio dos torcedores mais jovens e mais empolgados em cantar o tempo todo, o time de 2009 abriu o placar aos 12 minutos do primeiro tempo. Eltinho avançou, tabelou com Odair na entrada da área e tocou na saída de Adolfinho. Explosão da gurizada nas arquibancadas! Os mais antigos não se abalaram. “Calma, daqui a pouco o Nizeta começa a jogar”, falou calmamente para seu neto um senhorzinho corcunda que mastigava calmamente um punhado de amendoins na arquibancada atrás do gol onde a equipe de 2009 abriu o placar.

Mas ele se enganou. O time de 2009 continuou melhor em campo e quatro minutos depois chegou ao 2×0. Lima fez boa jogada pelo lado esquerdo do ataque e rolou a bola em direção à meia-lua. Marquinhos livrou-se da marcação de Henrique e chegou à bola no embalo para o chute. Ele bateu rasteiro, no canto direito de Adolfinho, que ainda tocou na bola, mas ela entrou. Festa da gurizada nas arquibancadas novamente. Nas cabines, a imprensa não compreendia como o time de 1945 podia fazer uma partida tão abaixo do que vinha apresentando. Como tiveram uma semana a mais de descanso, fizeram um amistoso contra o Figueirense de 1941 e ganharam por 21×3! Na final, porém, pouco fizeram na primeira etapa e foram para o intervalo com dois gols de desvantagem.

Eu não vi, mas me contaram que, no intervalo, o treinador Adolfo Boos, que havia jogado o Campeonato dos Sonhos como goleiro nos times de 1924, 1926, 1927, 1928 e 1930, fez um discurso emocionado no vestiário. Lembrou tudo o que aquela equipe de 1945 havia passado para chegar até ali, falou da desconfiança que muitos tinham com relação a uma equipe “de velhos”, e disse: “Essa será a última vez que vocês jogarão juntos. Joguem uns pelos outros”. Algumas pessoas que estavam no setor B relatam ter ouvido gritos de “vamos lá, senhores! Vamos ganhar esse prélio!” vindo do vestiário do time de 1945.

E realmente foi outro jogo no segundo tempo. O baixinho Saul, sumido na primeira etapa, passou a infernizar os grandalhões Turatto e Émerson. Num cruzamento na área ele tentou pegar de bicicleta. Ferdinando foi bloquear o chute e tocou com a mão na bola. Dalmo Bozzano não exitou: pênalti! Eram 13 minutos da segunda etapa. Saul bateu no canto esquerdo, Eduardo Martini caiu no direito. 2×1. Velhinhos em festa nas arquibancadas!

Parecia o primeiro tempo novamente, só que com os papéis invertidos. Agora, só o time de 1945 jogava. E aos 16 minutos, chegou ao empate. Felipinho foi lançado nas costas de Eltinho, foi à linha de fundo e cruzou no segundo pau. A bola veio alta e quase saiu, mas Tião conseguiu cabecear para o meio da área. Saul veio na corrida e pegou de primeira, sem deixar a bola quicar no chão, chutando rasteiro no canto esquerdo de Martini. 2×2. Bengalas ao alto! Tudo igual na decisão do Campeonato dos Sonhos!

Recuperado do susto, Silas colocou Evando e Uendel em campo. Adolfo Boos preferiu não fazer alterações. “Na nossa época, não tinha essa frescura”, resmungou ao ver Evando entrar no lugar de Lima. O jogo foi lá em cá, com boas chances para os dois lados. Isso até mais ou menos os 37 minutos do segundo tempo, quando as duas equipes passaram a atuar com mais cautela. O time de 2009 tentou chegar por meio de dois chutes de Leo Gago de fora da área, mas eles foram parar quase no aeroporto. Aos 43 minutos, o volante pegou novamente a bola na intermediária e avançou. Ajeitou o corpo para o chute. Das arquibancadas, vinham gritos: “De novo não, seu istepô!”. Mas Leo Gago chutou. E, dessa vez, chutou muito bem.

A bola foi forte, na direção do ângulo direito da trave defendida por Adolfinho. O estádio inteiro prendeu a respiração enquanto ela fazia a parábola e viajava da intermediária ao gol. O goleiro pulou o máximo que pôde e esticou o braço direito. Adolfinho sentiu a bola bater nas pontas de seus dedos, mas não conseguiu espalmá-la. A bola passou por ele, em direção à gaveta. O leve toque que ele deu, no entanto, foi suficiente para desviar a trajetória da bola, que bateu na forquilha e saiu pela linha de fundo. “Uuuuuuuuuuuuuuuhhhhhh”, foi o grito que os 30 mil presentes conseguiram soltar após o lance. Dalmo Bozzano não viu o toque do goleiro e deu tiro de meta.

Na cobrança do tiro de meta, Chocolate ganhou a disputa de cabeça com Marcus Winícius no meio do campo. A bola desviada por ele ganhou força com o vento, em direção à área de defesa do time de 2009. Ligeiro, Nizeta antecipou-se a Turatto e driblou o zagueiro na entrada da área. Émerson veio na cobertura e conseguiu travar o chute de direita de Nizeta com um carrinho. Porém, na dividida, a bola caiu no pé esquerdo do atacante, que não contou tempo: deu um biquinho na bola, antes que Émerson conseguisse travar novamente, e colocou-a no canto direito de Martini. Não houve tempo para reação do goleiro, que só pôde olhar a bola indo mansamente para o fundo das redes. Quarenta e cinco minutos do segundo tempo. 3×2 pro time de 1945. “Jogava muito esse Nizeta. Jogava não, joga!”, o senhorzinho do amendoim olhava pro neto e ria, feliz em poder ver, 67 anos depois, grandes lances de jogadores que ele havia guardado na memória durante todo esse tempo.

Não houve tempo para reação. Dalmo Bozzano apitou logo o fim do jogo. “Não dou acréscimo porque não me pagam hora extra”, justificou para Marquinhos, que ensaiou uma reclamação pela falta de acréscimos, mas logo desistiu. Saul ergueu a taça, aplaudido pelo estádio inteiro. A equipe de 1945, dos maiores artilheiros da história do Leão, de lendas como Saul, Nizeta, Felipinho e Adolfinho, o time do inédito tetracampeonato, que levou o nome do Avaí para todo o Estado (vários Avaís foram fundados nos anos seguintes, em diversas cidades catarinenses), foi, muito merecidamente, o campeão dos campeões.

Depois da festa no palco, uma cena que os avaianos jamais esquecerão. Jogadores de todos os times campeões estaduais juntaram-se aos de 1945 e aos de 2009 para saudar a torcida durante a volta olímpica. Estavam lá também os craques de 1924, 1926, 1927, 1928, 1930, 1942, 1943, 1944, 1973, 1975, 1988, 1997, 2010 e 2012. Zé Macaco, Beck, Balduíno, Zenon, Fossati, Adílson Heleno, Jacaré, Dão, Roberto, Cléber Santana, todos eles e muitos outros sendo ovacionados pelo público, que os aplaudiu de pé. Porque o time de 1945 pode ter sido o melhor no Campeonato dos Sonhos, mas todos eles, sem distinção serão eternamente campeões em nossos corações.

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2 Responses to “Campeonato dos Sonhos, a final”


  1. 1 GutoAtherino 16 de julho de 2012 às 15:56

    série épica, show de bola Felipe!! Parabéns pelos textos e, também claro, pelo aniversário na data de hoje!

    Abraços,
    Guto

    Obs.: não vai ter uma Copa Avaí (incluindo os campeões brasileiros de 1998, mais os campeões da segundona e os diversos campeões citadinos) para posteriormente ter uma Recopa Avaiana?! hehehe

  2. 2 felipefbs 22 de julho de 2012 às 13:34

    Opa, Guto, obrigado! Rapaz, leste meu pensamento! haha. Aguarde.


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